Rafael Gasques
Não existem atalhos para a felicidade
Toda criança sonha — e, ao sonhar, cria mundos. Uma criança não brinca de ser médica: ela é. Não brinca de ser professora: ela vive aquilo. O faz de conta, para ela, é real. Quem nunca foi cientista com potes de plástico virando vidros de laboratório? Quem nunca se imaginou grande, importante, amado?
Mas crescer cobra seu preço.
Nem sempre os sonhos se realizam. Nem sempre o brinquedo chega. Nem sempre a gente se encaixa. E, aos poucos, surgem os rótulos: “aluado”, “esquisito”, “excêntrico”. A criança livre encontra a realidade dura — dos adultos ou de outras crianças que já aprenderam a se podar.
E, ainda assim, a infância é o chão que sustenta tudo. Como diz a frase: “A infância é o solo que pisamos a vida toda”, da psicanalista Lya Luft. O problema é que, por muito tempo, venderam para nós um mundo que hoje quase não existe. Para algumas crianças, sonhar não é sobre futuro — é sobre o básico: um teto, comida, um lugar seguro. E a gente cresce tentando sobreviver, pagar contas, dar conta de tudo… e esquece de sonhar.
Por isso, fica o convite: sonhe de novo.
Não como antes — porque a vida muda —, mas com a mesma coragem de quando você era criança. Quando você não queria “ser”, você simplesmente era. Alguns sonhos demoram. Exigem tempo, esforço, estudo, cuidado. Não existe caminho fácil. Mas, no meio da correria, vale parar e perceber: quantos sonhos daquela criança você já realizou — e nem percebeu?
Talvez eles tenham passado despercebidos entre telas, pressa e preocupações.
Então sonhe.
Com a profissão, com conquistas — mas também com o simples: andar descalço na grama, se equilibrar numa mureta, subir em uma árvore, mergulhar imaginando um tubarão.
A vida não é um jogo — mas também não precisa ser só sobrevivência. E aquela voz que te ensinou a parar de sonhar? Ela ainda precisa mandar em você? No fim, talvez crescer não seja sobre deixar de sonhar. Mas sobre aprender a escolher quais sonhos você não está disposto a abandonar.



